conversas

Este mês a equipa da NEBletter esteve à conversa com o Professor Pedro Fernandes.
Engenheiro Químico especializado no ramo de Biotecnologia e com um doutoramento relacionado com a bioconversão de esteroides. Foi um dos co-fundadores da empresa Biotrend e não só trabalha, atualmente, como docente na Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, como é também investigador no Instituto Superior Técnico.

 

Para começar, como foi o seu percurso tanto académico, como profissional?

Curiosamente comecei em 1984, na Faculdade de Ciências. Na altura havia os Preparatórios de Engenharia, aqui em Lisboa, na Faculdade de Ciências e na atual Universidade da Beira Interior. Podíamos fazer lá os dois primeiros anos e depois tínhamos a possibilidade de vir para o técnico. Talvez por não haver condições de albergar tanta gente ou talvez para fazer uma espécie de seleção e ver quem realmente queria estudar Engenharia. Eu acabei os dois anos e comecei o equivalente ao terceiro ano no IST. Alguns aguentaram o Técnico e outros não. Eu, felizmente, fui um dos que aguentei. No quarto ano de Engenharia Química, segui o ramo de Biotecnologia. No final do curso, para além do Projeto Final que continua a ser aquele… (simula esfaqueamento, risos), tínhamos uma componente de laboratório/estágio. Na altura trabalhava em colaboração com o IST uma pequena empresa chamada Quatrum que se dedicava à produção de intermediários de esteroides terapêuticos e que tinha um polo no Pavilhão de Minas. Eu acabei por fazer o meu estágio lá e, após terminar o curso, continuei a trabalhar lá em investigação. A empresa eventualmente deu um salto mais longo do que a perna, faliu e eu voltei de férias, um dia, e dei com a empresa fechada. Entretanto, como já andava por aqui há uns anos, surgiu a possibilidade de fazer o mestrado em Engenharia Bioquímica e Biotecnologia. Mais tarde comecei o doutoramento e ao mesmo tempo apareceu a oportunidade de ir dar aulas para a Universidade Lusófona, onde cheguei a ter mais de 100 alunos por aula. Continuei por estas andanças até que, passado uns anos, surge a hipótese de, juntamente com mais três colegas, fazer umas coisas diferentes, uns trabalhos para fora e, nomeadamente, criar uma empresa. E foi aí que a Biotrend apareceu. Na altura nós estávamos muito assentes na produção de licopeno entre outras questões de prestação de serviços e entretanto aqui, no IST, deram-nos bastante rédea para trabalhar porque todos nós estávamos de certa forma ligados ao Técnico. A Biotrend acabou então por arrancar a sério, exigindo muita dedicação e eu, que na altura estava mais focado na parte académica, dar aulas nomeadamente, acabei por me afastar um pouco. Passei dos esteroides para a utilização de enzimas para variados fins e acabei por me interessar em microreatores, contudo sempre mais na vertente académica. E fui continuando assim, dividido entre a investigação no IST e as aulas na Lusófona, dando esporadicamente umas aulas também no IST e ainda umas orientações de mestrados. Atualmente vi-me obrigado a assumir um papel mais ativo na Biotrend, por questões formais e financeiras, sendo Administrador não Executivo.

 

Como surge a Biotrend?

 

Inicialmente foi uma simples questão de antigos colegas que se juntam com vontade de fazer alguma coisa diferente. Eu vi a entrevista da última edição da NEBletter, ao Simão da SilicoLife, e ele tem lá uma frase muito gira que diz que há uma altura em que a pessoa tem de fazer, caso contrário nunca fará. E é mesmo isso, foi naquela altura, a pessoa fez, arrancou e resultou. Nós tínhamos acabado os Doutoramentos, queríamos fazer alguma coisa real, só a vida académica não satisfazia, havia muitas ideias e decidimos lançar-nos ao desafio. Atualmente orgulho-me de dizer que a Biotrend, sendo uma empresa low profile, tem participado em projetos europeus, trabalhos para outras empresas, desenvolvimento e investigação, ou seja, parece estar bem consolidada. Já tem mais de dez anos e, felizmente, mantém-se.

 

E quando se acaba o curso? Acha que o técnico prepara bem os alunos?

Sei que há alguma dificuldade quando se sai do técnico. No entanto, acho que as pessoas têm uma boa formação base, têm qualidades e revelam-se bastante boas. De facto, isso vê-se, inclusivamente neste momento que tenho de orientar algumas teses, quando várias pessoas que vão para fora conseguem vingar, mostram que são boas e acabam por conseguir posições. Tenho tido a sorte de conseguir ajudar várias pessoas a irem para o estrangeiro que, de facto, têm tido sucesso.

 

Neste momento não só pertence ao ramo do ensino, como também faz investigação. Onde se encaixa a Biotrend? Em que se foca a sua atual investigação?

 

No técnico, atualmente, faço investigação e dou aulas a Engenharia Química. De facto, acabo por ser visto como um Engenheiro Químico que se afastou, precisamente, da Engenharia Química. Na Lusófona, atualmente estou dedicado ao ensino. Em relação à Biotrend, vou tentando dar alguma contribuição, contudo é algo que exige muita dedicação e muita disponibilidade de tempo que, por vezes, não tenho. Assim sendo, posso dizer que estou dividido em 50% aulas e 50% investigação.

A investigação que realizo está orientada para processos e tecnologia. Sou uma das pessoas envolvidas no conceito da utilização de reatores miniaturizados como veículo de paralelização para intensificar desenvolvimento de processos. Isto revela-se útil quando uma pessoa quer tornar os processos mais competitivos, aumentar a velocidade com que estes se desenvolvem ou até mesmo rastrear algumas condições específicas. Mesmo utilizando métodos estatísticos são necessárias as informações, pelo que usar metodologias para conseguir fazer muitos ensaios de uma forma reprodutível e ao mesmo tempo revela uma grande utilidade. Neste ponto, não só entram os conceitos biológicos, mas também os de engenharia, nomeadamente, aquando da análise dos parâmetros que são necessários satisfazer para que algo seja reprodutível, possíveis aumentos de escala e uso de ferramentas e dispositivos.

 

E em relação a perspetivas futuras, sejam elas de curto ou longo prazo?

A verdade é que nunca se está satisfeito. Queremos sempre mais. Gostaria de continuar o meu trabalho no desenvolvimento de processos (muito ligado ao uso de enzimas), mas observando, neste caso, os enzimas de uma forma muito transversal. Sucintamente gostaria de conseguir trabalhar em rede com várias pessoas com conhecimentos complementares, sejam eles biológicos, de caracterização de superfícies, química, modelação e computação. Aspiro também conseguir exercer um papel mais ativo na Biotrend.

 

Por fim, que conselhos poderá dar aos alunos?

 

Sugiro que aproveitem todas as oportunidades que tenham quando saírem do técnico. Nos eventuais estágios que façam, usufruam ao máximo, já que têm a oportunidade de “lançar as sementes” para obter contactos. Fazendo um bom trabalho e mostrando empenho acabam por conseguir deixar uma marca pelos sítios por onde passam. Se tiverem boas ideias, sejam persistentes, agarrem-se ao que acreditam, arrisquem e nunca desistam. Tentem perceber quando é o momento certo para arriscar, pois quando se deixam certas coisas para mais tarde, estas podem tornar-se mais complicadas. Quando forem à luta, certamente cairão, mas ter-se-ão que levantar para continuar a lutar, sem ter o medo de falhar e sem desistir à primeira contrariedade.

Obviamente que terão de ser bons tecnicamente, mas nunca devem, também, descurar a componente das soft-skills, o bom relacionamento com outras pessoas e o espírito aberto.

Interview to Dr. Pankaj Karande

This month our interviewed guest was Dr. Pankaj Karande. Dr. Pankaj is currently an Assistant Professor at the Chemical and Biological Engineering Department at Rensselaer.  He obtained his Ph.D. from UC Santa Barbara in 2006 where his thesis work focused on the use of chemical enhancers for transdermal drug delivery. He has won numeral awards such as: The Edison Award for best Product in Science and Medicine (2009), The Anna Fuller Fellowship in Molecular Oncology (2006-2007) and Outstanding Pharmaceutical Paper by the Controlled Release Society (2005).

Interview

[NebLetter Interviewer- NEB] Could you please, tell us more about your background?

[Doctor Pankaj Karande – PK] I grew up in India, Bombay, and when I started my professional education, I knew that I’d like to be an engineer! At the time I was very interested in computer science, so Computer Engineering was the first thing to come up in my mind. But during this time, when I was deciding what to do, I met a person who explained to me what Chemical Engineering was and what kind of things chemical engineers do. In literally one day I had changed my mind! My sister is a microbiologist but, despite that, I didn’t had much references to support my choice, even though my parents were very supportive.  My choice was basically me despising things that I didn´t want to do.

The most important thing to consider when choosing a course, is to do something you actually love! I had a great time while studying chemical engineering and during my degree I was able to discover what I really love!

My next choice appeared 4 years later, when I had finished my degree and had to choose between going to an industrial job or a research career. And again, I had no idea of what to do! I sough guidance from teachers, mentors and friends who were already working, but deep inside I knew that I didn’t want to go into industry yet. So I decided to apply to PhD programs in the US and luckily I was accepted by UC Santa Barbara, in California. At the beginning, I had the idea of enrolling in some research project either in molecular simulation, process control or plasma etching for semiconductors, but when I met my advisor, Samir, he introduced me to this cool work on getting pharmaceuticals through the skin; that’s what I’m working on nowadays. It’s not only interesting and allows me to use the principles of chemical engineering, but it also involves the fields of Healthcare, Biological Eng. and Biomedical Eng. that really interest me. It is so rewarding! Knowing that what you do, even the small discoveries in the branch, will have a future impact in some people’s life, making it better.

It was by this way that when I became a teacher, I knew that I would like to work in the subject of healthcare! Even if I’m trained in chemical eng., a lot of what I do is in the interface of biology, bioengineering and biomedical engineering, what I pretty enjoy doing.

If I look back, my whole career is based on fortunate accidents, that I’ve met the right people at the right time! Sometimes not knowing what to do, is not a bad thing at all! It just means that you’re open to be fascinated by new things.

 

[NEB] – How is the experience of living abroad?

[PK] – It’s amazing! When I got out of Bombay, I was just a 21 year student, who hadn’t travelled much until there, and my first big move was 100.000 miles from home! It was a good experience, working in the US. I was able to meet people not only from different parts of the world but also from other parts of India I didn’t knew. When you start interacting with people, from different languages and cultures, sharing experiences, we start to feel not as Indian or Portuguese or a Brazilian, but like citizens of the world. You truly get this sense, when you put yourself into a mix of people, and the university environment allows you that.

This wide way of thinking in the world, it opens your eyes! Most of the times, if you don’t travel, all you know about how things happen in other parts of the world, is by what you have seen on Tv and read. It doesn’t really start to describe it. You just realise this reality when you meet the real people and you talk and know about their whereabouts, and you also share a part of you.

I think that everybody who has the opportunity, especially when you are students, should take it!

[NEB] – What are your main interests in science?

[PK] – I’m interested in applying the principles of engineering to improve healthcare, like new drug delivery technologies like this project that I’m working on, about delivery drugs to the brain. It’s a big challenge, since there is no way to do this right now, a lot of people die from Alzheimer, Parkinson or epilepsy, and it’s a disease that we don’t really understand. This affects both quantity of life and quality. I’m very interested in deliver drugs to the brain, but I also have interests in 3D organ printing and in making easily accessible medicine (medicine on demand) for everybody, because everybody has the right to have a good life, a disease free life, and sometimes the medicines and treatment doesn’t reach everybody.

[NEB] – From what I understood, you work in very different projects, from drug delivery to organ printing. Why work in such different projects, instead of focusing in just one subject?

[PJ]- I think it has to do with my personality! I get bored for always doing one thing, and so for me to be continuously excited and engage, I need to be doing different things and that is just how I have been. I say to myself, “Why not?”, if I have the opportunity to work with this wonderful collaborators and different areas. I think we are all students throughout our lives, so when I work with collaborators from new areas, is for me a way of keep learning, keep understanding, keep knowing. I don’t just want to be better in this one thing, I want explore and enjoy the knowledge.

We try to do what we are best at and then we join hands and collaborate with other people that excel in other areas, to have a synergy. One plus one, if done right, can add more than two!

[NEB] – You’re working in the US, a country with lot of investment in science and technology, with a lot of good publications and research. How do you see the rest of the world, more specifically Portugal?

[PJ] – I truly believe that smart people are everywhere. The US just offers more freedom in terms of being able to do research or to be part of a university. It makes a conscious effort to invest in new technologies, to always be at the forefront. There is a great amount of support from federal agencies, and also private agencies.

There is intelligent people in India, Portugal, Brazil or even Sudan, everywhere, but sometimes they just haven’t the opportunity to build up that basic intellect. I have a very, very high opinion about European people! We have collaborators from Europe, and right now I even have a Portuguese student in my lab! She has been there for about two months, and I think she’s amazing, she’s ambitious, she’s smart and she’s willing to work hard to adapt to this new environment! She’s a very creative person and now she’s working in collaboration with my group, biomedical group and another group at the University of Pennsylvania and she’s coordinating everything!

From Portugal I just worked with IST, but in the last two days I’ve met so many students and I was just amazed with conversations! I got some tough question that I don’t have from my faculty and from companies!

[NEB] – I don’t have more questions for you. On behalf of NEB I would like to thank you for accepting to be interviewed by us. It was a pleasure to interview you!

[PJ] – I’m the one who needs to thank you for these lovely conversation! I hope we do something in the future!

Interview to Dr. Pankaj Karande

This month our interviewed guest was Dr. Pankaj Karande. Dr. Pankaj is currently an Assistant Professor at the Chemical and Biological Engineering Department at Rensselaer.  He obtained his Ph.D. from UC Santa Barbara in 2006 where his thesis work focused on the use of chemical enhancers for transdermal drug delivery. He has won numeral awards such as: The Edison Award for best Product in Science and Medicine (2009), The Anna Fuller Fellowship in Molecular Oncology (2006-2007) and Outstanding Pharmaceutical Paper by the Controlled Release Society (2005).

Interview

[NebLetter Interviewer- NEB] Could you please, tell us more about your background?

[Doctor Pankaj Karande – PK] I grew up in India, Bombay, and when I started my professional education, I knew that I’d like to be an engineer! At the time I was very interested in computer science, so Computer Engineering was the first thing to come up in my mind. But during this time, when I was deciding what to do, I met a person who explained to me what Chemical Engineering was and what kind of things chemical engineers do. In literally one day I had changed my mind! My sister is a microbiologist but, despite that, I didn’t had much references to support my choice, even though my parents were very supportive.  My choice was basically me despising things that I didn´t want to do.

The most important thing to consider when choosing a course, is to do something you actually love! I had a great time while studying chemical engineering and during my degree I was able to discover what I really love!

My next choice appeared 4 years later, when I had finished my degree and had to choose between going to an industrial job or a research career. And again, I had no idea of what to do! I sough guidance from teachers, mentors and friends who were already working, but deep inside I knew that I didn’t want to go into industry yet. So I decided to apply to PhD programs in the US and luckily I was accepted by UC Santa Barbara, in California. At the beginning, I had the idea of enrolling in some research project either in molecular simulation, process control or plasma etching for semiconductors, but when I met my advisor, Samir, he introduced me to this cool work on getting pharmaceuticals through the skin; that’s what I’m working on nowadays. It’s not only interesting and allows me to use the principles of chemical engineering, but it also involves the fields of Healthcare, Biological Eng. and Biomedical Eng. that really interest me. It is so rewarding! Knowing that what you do, even the small discoveries in the branch, will have a future impact in some people’s life, making it better.

It was by this way that when I became a teacher, I knew that I would like to work in the subject of healthcare! Even if I’m trained in chemical eng., a lot of what I do is in the interface of biology, bioengineering and biomedical engineering, what I pretty enjoy doing.

If I look back, my whole career is based on fortunate accidents, that I’ve met the right people at the right time! Sometimes not knowing what to do, is not a bad thing at all! It just means that you’re open to be fascinated by new things.

 

[NEB] – How is the experience of living abroad?

[PK] – It’s amazing! When I got out of Bombay, I was just a 21 year student, who hadn’t travelled much until there, and my first big move was 100.000 miles from home! It was a good experience, working in the US. I was able to meet people not only from different parts of the world but also from other parts of India I didn’t knew. When you start interacting with people, from different languages and cultures, sharing experiences, we start to feel not as Indian or Portuguese or a Brazilian, but like citizens of the world. You truly get this sense, when you put yourself into a mix of people, and the university environment allows you that.

This wide way of thinking in the world, it opens your eyes! Most of the times, if you don’t travel, all you know about how things happen in other parts of the world, is by what you have seen on Tv and read. It doesn’t really start to describe it. You just realise this reality when you meet the real people and you talk and know about their whereabouts, and you also share a part of you.

I think that everybody who has the opportunity, especially when you are students, should take it!

[NEB] – What are your main interests in science?

[PK] – I’m interested in applying the principles of engineering to improve healthcare, like new drug delivery technologies like this project that I’m working on, about delivery drugs to the brain. It’s a big challenge, since there is no way to do this right now, a lot of people die from Alzheimer, Parkinson or epilepsy, and it’s a disease that we don’t really understand. This affects both quantity of life and quality. I’m very interested in deliver drugs to the brain, but I also have interests in 3D organ printing and in making easily accessible medicine (medicine on demand) for everybody, because everybody has the right to have a good life, a disease free life, and sometimes the medicines and treatment doesn’t reach everybody.

[NEB] – From what I understood, you work in very different projects, from drug delivery to organ printing. Why work in such different projects, instead of focusing in just one subject?

[PJ]- I think it has to do with my personality! I get bored for always doing one thing, and so for me to be continuously excited and engage, I need to be doing different things and that is just how I have been. I say to myself, “Why not?”, if I have the opportunity to work with this wonderful collaborators and different areas. I think we are all students throughout our lives, so when I work with collaborators from new areas, is for me a way of keep learning, keep understanding, keep knowing. I don’t just want to be better in this one thing, I want explore and enjoy the knowledge.

We try to do what we are best at and then we join hands and collaborate with other people that excel in other areas, to have a synergy. One plus one, if done right, can add more than two!

[NEB] – You’re working in the US, a country with lot of investment in science and technology, with a lot of good publications and research. How do you see the rest of the world, more specifically Portugal?

[PJ] – I truly believe that smart people are everywhere. The US just offers more freedom in terms of being able to do research or to be part of a university. It makes a conscious effort to invest in new technologies, to always be at the forefront. There is a great amount of support from federal agencies, and also private agencies.

There is intelligent people in India, Portugal, Brazil or even Sudan, everywhere, but sometimes they just haven’t the opportunity to build up that basic intellect. I have a very, very high opinion about European people! We have collaborators from Europe, and right now I even have a Portuguese student in my lab! She has been there for about two months, and I think she’s amazing, she’s ambitious, she’s smart and she’s willing to work hard to adapt to this new environment! She’s a very creative person and now she’s working in collaboration with my group, biomedical group and another group at the University of Pennsylvania and she’s coordinating everything!

From Portugal I just worked with IST, but in the last two days I’ve met so many students and I was just amazed with conversations! I got some tough question that I don’t have from my faculty and from companies!

[NEB] – I don’t have more questions for you. On behalf of NEB I would like to thank you for accepting to be interviewed by us. It was a pleasure to interview you!

[PJ] – I’m the one who needs to thank you for these lovely conversation! I hope we do something in the future!

Nesta edição da rúbrica “Conversas à engenheiro” entrevistámos o Engenheiro Francisco Pereira, cofundador da empresa Fermentum Lta., detentora da marca de cerveja artesanal Letra. O engenheiro Francisco formou-se na Universidade do Minho em Engenharia Biológica no ano de 2008, onde teve o seu primeiro contacto com o mundo “cervejeiro”. Durante a sua tese investigou a produção de bioetanol através de fermentações microbianas, ingressando posteriormente num doutoramento em Very-High Gravity Fermentation. Todo este contacto com fermentações levou à formação da Fermentum Lta., uma empresa direcionada para a produção de cerveja artesanal.

A Fermentum Lta. é uma “empresa proveta”, estando ainda a dar os primeiros passos no mundo empresarial, mas com resultados bastante satisfatórios! A sua base de negócio é a cerveja artesanal Letra. Esta cerveja é 100% natural, intensificado o seu sabor e aroma, distinguindo-a das cervejas produzidas em Portugal neste momento. Foca-se em 4 tipos de cerveja, as letras A (Weiss), B (Pilsner), C (Stout) e D (Red Ale), produzidas com receitas diferentes, com forte inspiração alemã, que prometem conquistar todo o tipo de línguas! Vencedora do Prémio de Melhor Start-up Agro-industrial do ano 2013, com a marca Letra, esta empresa está ganhar terreno em Portugal e no estrangeiro, ensinando o abecedário de uma forma muito mais saborosa!

Encontrámo-nos com o Eng. Francisco na universidade do Porto, onde foi orador no painel de Start-ups do 6th Symposium of Bioengineering. Foi uma óptima experiência, pois não é todos os dias que podemos conversar com engenheiros jovens de sucesso de forma aberta e descontraída, descobrindo os quês e porquês do processo empresarial. Foi depois numa conversa “à distância” que o Eng. Francisco nos respondeu de forma mais completa às várias perguntas que abordámos no nosso encontro cara-a-cara.

1.   Sabemos que estudou Engenharia Biológica na Universidade do Minho, um curso muito semelhante ao nosso. Fale-nos um pouco sobre a sua experiência enquanto aluno e quais as aptidões adquiridas que considera fundamentais para sua vida profissional actual.

O curso de Engenharia Biológica na Universidade do Minho está organizado no sentido de dotar os alunos de competências teóricas, mas também dando-lhes ferramentas para a resolução de problemas práticos na área científica mas também em áreas empresariais ligadas principalmente ao sector agro-industrial. As competências adquiridas durantes esses 5 anos foram sem dúvida fundamentais para o início da minha carreira profissional.

2.   Posteriormente à finalização do curso, iniciou-se num programa de investigação  doutoral, sobre Very-high gravity fermentation. Explique-nos em que consiste este tipo de fermentação.

O início dos estudos de processos de Very High Gravity surgiu com a entrada em 2008 no projecto de investigação PROBIOETANOL, que estava a decorrer no Centro de Engenharia Biológica da Universidade do Minho. Esta tecnologia baseia-se na fermentação de elevada carga de sólidos/açúcar para obtenção de elevadas concentrações de etanol no final do processo, maximizando-se as produtividades e rendimento do processo. Devido ao facto de existir um elevado stress para a levedura, o projecto baseou-se também no desenvolvimento e selecção de estirpes de levedura naturalmente resistentes a elevadas concentrações de etanol. Foi sem dúvida a minha primeira experiência a nível científico e os resultados foram excelentes, culminando na escrita de diversos artigos em revistas internacionais.

3.   O Engenheiro Francisco focou os seus estudos numa vertente 100% nacional. Considera que projectos de mobilidade e intercâmbio, como o Erasmus, importantes no currículo de um recém-engenheiro?

Sim considero que é uma mais valia fazer programa tipo Erasmus ou Leonardo Da Vinci. No meu caso, pelo facto de estar a iniciar o projeto empresarial aquando do Doutoramento não foi possível ter essa experiência que estava programada no programa doutoral. Terá de ficar para outra altura/oportunidade.

4.   Sabemos que frequentou um curso de ideias de negócio. Quais são as soft-skills e competências transversais que um Engenheiro biológico deve possuir?

Um Engenheiro Biológico tal como outro engenheiro deve possuir o máximo de competências transversais. Claro que quando tencionamos iniciar um negócio do zero, competências na área económica/financeira são fundamentais. No meu caso, este tipo de competências que adquiri também ao longo do curso de Engenharia Biológica foram fundamentais para perceber a noção de custo/receita que está envolvida em qualquer negócio.

5.   Como surgiu a ideia de abrir uma empresa de produção de cerveja artesanal? Considera que a faculdade teve um papel importante na ideia de negócio, ou foi um projeto que partiu inteiramente de si e do seu parceiro, o Engenheiro Felipe Macieira.

O projeto partiu inteiramente de nós os dois. As nossas experiências associadas ao sector cervejeiro em 2008, quando terminamos os cursos foram fundamentais. Eu fiquei associado a um projeto numa indústria portuguesa e o Filipe fez ERASMUS na República Checa num tema relacionado com cerveja. Foi com estas experiências que nos apercebemos da inexistência de cerveja artesanal em Portugal.

6.   O Francisco pertenceu a dois mundos diferentes: Investigação e Indústria. Como foi conciliar os dois?

Não é uma situação fácil. Conciliei grande parte do meu projeto de doutoramento com a abertura da empresa e a elaboração de todo o plano de negócios. Tem de existir uma vontade e dinamismo muito grande pois o dia apenas tem 24h! Claro que quando se trata de um projeto nosso, como é o caso de uma empresa, a motivação é elevada e por vezes supera o cansaço e todas as noites mal dormidas.

7.   A cerveja Letra é uma cerveja artesanal, produzida com ingredientes 100% naturais, conferindo-lhe qualidades organoléticas que a distingue das cervejas produzidas atualmente em Portugal. Explique-nos quais as principais características que distinguem a cerveja artesanal da cerveja produzida de forma industrial.

A cerveja artesanal é um produto 100% natural onde são usadas as melhores matérias-primas para a obtenção de um produto de elevada qualidade. A inexistência de qualquer tipo de filtração é também um factor importante. A cerveja é vendida no seu estado mais natural, o que potencia os sabores e aromas da matéria-prima. Do ponto de vista conceptual a cerveja artesanal também é um produto mais “local” e sempre produzida em menores quantidades que o produto industrial.

8.   Na universidade aprendemos muito sobre o fabrico e o downstreaming de um produto, mas a componente de gestão empresarial e marketing não é abordado tão profundamente. Como é lidar com esta parte essencial do desenvolvimento empresarial?

A abordagem à gestão empresarial e marketing é fundamental quando pensamos em lançar um produto no mercado. Claro que no início existem sempre bastantes dúvidas e principalmente no marketing o ideal é procurar ajuda com pessoas da área e que nos podem ajudar a desenvolver um projeto de marketing e comunicação. No entanto, a nossa opinião foi sempre fundamental para a criação do projeto de marketing associado à marca LETRA.

9.   De que forma é que o Prémio de Melhor Start-up Agro-industrial do ano 2013 influenciou a empresa? Considera iniciativas como os concursos de start-ups uma mais-valia para empresas que se estão a lançar no mercado de trabalho?

Foi um prémio muito importante para nós principalmente porque foi na altura que estávamos a entrar no mercado e este prémio veio “validar” todo o projecto de desenvolvimento associado à empresa. Foram 3 anos dedicados a este projeto de desenvolvimento que foram naquele momento premiados. Sim este tipo de concurso são importantes, não pela parte financeiro mas pela parte de divulgação associado a cada projeto.

10.   A construção de uma empresa envolve o investimento de uma grande quantidade de capital inicial, principalmente quando nos referimos à área de bioengenharia, na qual é necessário investir muito em maquinaria logo de início. Como obtiveram financiamento e apoio?

O financiamento total do projecto foi obtido através de uma candidatura a um projecto PRODER. A outra parte do financiamento foi com a ajuda de familiares. Após este período de investimento as vendas do produto é que justificam novos investimentos.

11.   Neste momento vocês encontram-se bem posicionados no mercado. Quais são os próximos passos da Fermentum Lda.?

O próximo passo da Fermentum é a abertura de um BrewPub junto à fábrica (apenas separado por um vidro). Este novo espaço permitirá aos nossos clientes uma experiência associada ao processo cervejeiro, onde os visitantes podem conhecer o nosso produto em pormenor e também tudo o que está relacionado com o processo de fabrico artesanal de cerveja.

12.   E quais são os seus planos a nível pessoal/profissional? Investigação ou Indústria?

Indústria claramente. Mas é meu objectivo ter uma experiência dentro de 5/10 anos num meio mais académico.

13.   Existem muitos leitores nossos cujo sonho seria abrir a sua própria empresa, tal como o Francisco fez. Quais são os conselhos que pode dar aos nossos leitores?

Não ter medo de testar ideias de negócio sejam elas as mais difíceis de concretizar. É muito importante tentar tirar as coisas do papel e aqui os fatores importantes são muita persistência e dinamismo.

14.   Como é ser um engenheiro de sucesso com apenas 29 anos?

Não me considero um engenheiro de sucesso. A empresa está ainda a ultrapassar um fase inicial importante e só dentro de 5/10 anos é que poderemos olhar para trás e ver qual o percurso e os resultados!

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Por fim, gostávamos apenas de agradecer a simpatia e disponibilidade que o Engenheiro Francisco mostrou ao nos responder a todas as questões e dúvidas colocadas, o que facilitou imenso a concretização desta entrevista. Desejamos boa sorte para projectos futuros e que a cerveja artesanal continue a ter sucesso, tornando-se num bem quotidiano da vida dos portugueses!

Por Duarte Martins e Inês Martins, 4° e 3°ano do Mestrado Integrado em Engenharia Biológica.

Este mês estivemos à conversa com o Engenheiro António Gonçalves da Silva, Mestre em Engenharia Química pelo IST, com um largo percurso profissional pela Indústria Química sendo especialista na área de Gestão Industrial. Atualmente desempenha o papel de consultor na Bumble B, é Coordenador do Colégio Regional Sul de Engenharia Química e Biológica e ainda professor no ISEL.

 

NEBletter – O que é que nos pode dizer acerca do seu percurso profissional? Inicialmente começou por uma vertente mais científica da carreira, foi propositado?

AGS – Posso começar por dizer que foi um lapso. Na altura enveredar pela vertente científica era mais fácil visto que, como eu acabei o curso com uma média muito alta, fui logo convidado para ficar a investigar. Depois de perceber como era a investigação naquele tempo, apercebi-me que isso não era o que queria, o que queria realmente era ser engenheiro. Acabei o curso um pouco antes do 25 de Abril e até 1974 estive a fazer investigação em ciência pura e, apesar de alguns sucessos, era uma violência para mim continuar a fazer uma coisa que não era de facto a minha vocação. Então abandonei deliberadamente o doutoramento e fui para a indústria (Quimigal), trabalhar em especialidades químicas. Participei no projecto de duas fábricas para a Quimigal : como Engenheiro de Processos no projecto da fábrica de poliéterpoliois poliéterpoliois e etoxilados;   e fui encarregado de liderar a engenharia de processo na fábrica de formulações de poliuretanos. Andei feliz nesse tempo porque finalmente trabalhava como engenheiro. Em 1982 foi-me proposto dirigir a produção das duas fábricas que tinha feito e mais uma outra de resinas de poliéster insaturadas. Fiquei pela primeira vez a fazer gestão industrial. Apanhei o susto da minha vida porque não sabia o que era a Gestão. Com uma ajuda que não esqueço dos contabilistas da divisão comecei a perceber melhor o que era a Gestão na vertente financeira, e (a brincar, claro) costumo dizer que, pela primeira vez, arranjei uma “nova paixão” fora do casamento: a Gestão Industrial !… Um engenheiro conhece a parte técnica mas um gestor gere as prioridades e os indispensáveis recursos financeiros. Acho que foi assim que realmente me apaixonei pela gestão.

Daí a pouco tempo, a Quimigal recrutou-me para director industrial de uma empresa associada (a Sonadel).  Tinha apenas 34 anos, cresci muito ali e acabei a ser diretor de negócios. Em 1991, o grupo de empresas onde a Sonadel se integrava foi comprado por uma multinacional americana, a Colgate-Palmolive, e aí tive cargos de gestão industrial muito diversificados. Cito nomeadamente a área da Qualidade, a minha segunda paixão, que dura até hoje.

Em 2004, fiz 55 anos e, na Colgate-Palmolive, era normal as pessoas negociarem as saídas quando atingiam essa idade. Eu podia ter deixado de trabalhar e ter pedido a reforma antecipada, mas era professor no ISEL desde 1984  e não queria deixar isso. Então decidi começar uma actividade de consultoria, em gestão industrial e em grande parte na área da Qualidade. Na minha opinião, a Qualidade é a única maneira realmente consistente de uma empresa sobreviver e se manter próspera.

“Comecei como cientista na área da Química-Física Molecular, passei a trabalhar como engenheiro na área da Química Industrial, e hoje em dia sinto-me muito um Engenheiro dentro da minha especialidade: a Gestão Industrial.”

NEB – Considera que a Engenharia e Gestão estão de mãos dadas?

AGS – Claro que sim. Um Engenheiro é um gestor de recursos. Um Engenheiro tem que ter a noção de que tem que ter conhecimentos da parte técnica mas que também tem que saber um mínimo de gestão. A Gestão não é difícil, tem muito de bom senso, mas também tem muita técnica e, infelizmente, as nossas escolas de engenharia, geralmente não nos dão a devida preparação nesta área. Um Engenheiro é uma grande mais valia no mundo do emprego, por ter conhecimento técnico. No entanto, para nos conseguirmos impor completamente e construir uma carreira é preciso ter conhecimentos/capacidades de Gestão.

Gerir equipamentos e gerir materiais é muito mais fácil do que gerir pessoas.

NEB – Referiu que quando saiu do curso de sentiu impreparado. Não sentiu a necessidade de procurar alguma formação adicional na área da Gestão?

AGS – Não foi logo quando saí, foi após uns 7 anos de investigação no Técnico que senti a necessidade. No entanto não procurei formação académica porque na altura não era tão fácil como agora, mas gostava de ter tirado um MBA. Como já tinha dito, os contabilistas deram-me uma grande ajuda na parte financeira e, para além da parte técnica da gestão que aprendi pelo estudo pessoal, também aprendi muito a ver os outros.

NEB – Marketing: Quando e como entrou para a sua vida?

AGS – Eu não sou especialista em Marketing, sucede porém, que na minha vida na Colgate-Palmolive a empresa utilizou a determinada altura a minha capacidade como formador internacional porque tenho  duas características pessoais: gosto muito de ensinar/tenho uma boa capacidade de comunicação, e ainda por cima sou fluente na língua inglesa. Como formador internacional da Colgate participei no desenvolvimento e divulgação de uma série de cursos de formação na área do Marketing, nomeadamente promoções ao consumidor. Frequentei diversos cursos neste área como: Comunicação, Publicidade, Account Management, entre outros sempre com a intenção de mais tarde ser formador nos mesmos.

Claro que adquiri e tenho  conhecimentos técnicos de Marketing  sim, mas não me considero um homem de Marketing.

NEB – Qual a experiência mais gratificante e de qual gostou mais?

AGS –  Aquilo que eu gosto mais de fazer, entre investigação científica, engenharia prática, gerir e ser consultor, teve a ver com a altura da vida em que estava:  a investigação científica que fiz não era a minha praia, mas teria porventura, gostado muito se tivesse ido fazer investigação na área da gestão industrial. Gosto de gerir e nesta altura da minha vida, depois de uma longa carreira na gestão industrial, dá-me um certo gozo fazer consultoria, porque vou conhecer realidades diferentes e procurar respostas para problemas diferentes. Isto é quase como fazer investigação científica, numa área de que gosto muito.

De gestão gosto. De consultoria também gosto. A parte industrial, fazer fábricas, foi uma altura gloriosa da minha vida, em que andei feliz como um passarinho mas não sei se na minha idade, hoje, ainda gostaria de o fazer.

De tudo, diria que a Gestão Industrial foi a parte que eu gostei mais.

Devo dizer que gostei muito do Técnico, acho que foi e é uma escola de excelência, e estou-lhe muito agradecido, no entanto acho que a minha grande universidade foram as empresas.

NEB – Quais considera serem os pilares para uma pessoa que acabe de sair conseguir ter sucesso na sua vida profissional?

AGS – Há um pilar que é fundamental que é o conhecimento técnico. Outro pilar muito importante é uma pessoa viver bem consigo própria, ter auto-confiança, ou seja, ser capaz de ter a noção de que pode não ser perfeito e pode não conseguir fazer tudo já, mas que consegue lá chegar. E ter a auto-motivação necessária para sair da sua zona de conforto e conseguir fazer coisas novas, responder a desafios. Para isso, tem de estar bem consigo própria e com os outros. Os aspetos comportamentais e relacionais são muito importantes.

Quando fui nomeado para diretor industrial de uma empresa associada da Quimigal, pelo Engenheiro José Mantua eu disse-lhe que agradecia a prova de confiança, mas que não tinha a certeza de ser capaz de cumprir. Aí ele disse-me: “Se eu não confiar em si, tudo bem, eu estou consigo uma ou duas horas por semana, agora se você não confiar em si está tramado, porque você está consigo 24horas por dia.”

Há ainda outro aspeto fundamental, o aspeto ético. Há uma coisa chamada triângulo ético porque um engenheiro é eticamente responsável perante a sua organização, perante si próprio e a sua família e perante a sociedade. Por exemplo, se a organização quer fazer uma coisa lesiva  para a sociedade e a pessoa contrariar a empresa, pode perder o emprego e comprometer o seu rendimento e o da família mas defende a sociedade. Que fazer?… Estes aspetos deontológicos e éticos são  o cartão de visita de um indivíduo, aquilo que o representa. Quando um tipo é eticamente correto tem, relativamente a si próprio, um comportamento também eticamente correto e reforça a auto-confiança e a auto-motivação.

NEB – E a ambição?

AGS – A ambição tem um bocadinho a ver com a área comportamental. Houve um americano, chamado McClelland que identificou diferentes tipos de motivação: há pessoas praxis, protos e patrias. Motivação praxis são aquelas pessoas que são competitivas, que se motivam pela  vitória, são pessoas ambiciosas, e esta motivação é própria dos grandes atletas. Uma pessoa com motivação patria também tem motivação, mas de uma maneira diferente, é uma pessoa que gosta de estar numa equipa, não gosta de ser ele a ganhar sozinho, gosta de participar na vitória da equipa. Não são os líderes, são os jogadores de equipa. Finalmente os protos, são os tipos que se motivam pela influência do poder, são aquelas pessoas que gostam de estar no inner-circle, são os grilos falantes que gostam de estar ao pé do líder e que gostam de o influenciar. Podem não ser os líderes, mas têm um papel importante e gostam de estar à frente, a falar.

No momento em que não tivermos uma paixãozinha ou uma ambição que queremos ver cumpridas, “morremos”. Se um individuo não tiver auto-confiança/auto-motivação para sair da sua zona de conforto e fazer o que quer, não vai dar a parte nenhuma. Eu vejo a ambição como um aspecto importante mas temos que sair da zona de conforto, com a auto-confiança em si próprio para conseguir concretizar as ambições.

NEB – Considera que não é crucial tirar uma formação extra em Gestão?

AGS – Eu acho que é muito útil. Uma formação extra em gestão poupa muito tempo porque aquilo que vocês precisam de saber é-vos ensinado por quem que já adquiriu muitos conhecimentos e experiência e transmite a informação mais relevante e de uma forma organizada. Eu enveredei por outra via, que foi ir “batendo com a cabeça nas paredes” e ir lendo, mas realmente se alguém tirar uma pós-graduação em gestão, poupa muito tempo e aprende de uma forma mais eficiente. Vocês vão sair do Técnico, mas é claro que não vão sair a saber tudo. Ao longo da vida vão aprender Eng.ª Biológica, vão aprender Gestão, vão aprender coisas comportamentais. Claro que saem com muito boas bases técnicas do Técnico, mas vão ter que aprender muito ao longo da vida. Após saírem da casa que é o Técnico, vocês vão ser “lançados aos bichos”, mas há uma casa que vos recebe, que é a Ordem dos Engenheiros, que proporciona aos seus membros uma série de cursos e eventos que representam uma mais-valia na complementaridade da formação ao longo da vida.

NEB – Quais é que são as áreas que considera mais promissoras, para alunos que estão preste a terminar o curso e a sair?

AGS – Na área da Eng.ª Química, as commodities, como o petróleo e os cereais, estão cada vez mais a ser processados nos países de origem da matéria prima. Mas há uma nova área para a Eng.ªQuímica, que é a resultante da possível extracção no Ocidente de gás e petróleo de xisto .

Vejo que existe caminho para as boas ideias:  start-ups que façam coisas muito específicas. Cito como por exemplo na vossa área, a Heart Genetics, que desenvolveu testes para detectar cardiopatias. Na indústria química e biológica são muito prometedoras pequenas empresas que façam coisas especializadas e inovadoras de maneira muito eficaz. Acho que é este um caminho a seguir em particular na área de Eng.ª Biológica.

Há uma terceira área, mais recente mas também muito interessante que é a das nanotecnologias aplicadas a materiais.

Por fim há uma outra área em expansão que é a fotónica (indústria da radiação), que está a ter um crescimento exponencial, e que poderá ter no século XXI um papel semelhante ao da electrónica no século XX.

NEB – Que conselhos tem para o futuro?

AGS – Continuem a fazer a NEBLetter, continuem a falar com pessoas mais velhas e com experiência. Há um enorme valor em “ter aulas fora das salas de aula”, em sair dos anfiteatros do Técnico e ir ao terreno, falar com as pessoas que lá trabalham, como por exemplo ir a Oeiras ao ITQB ou ao iBET ver aquilo que lá se passa. Um conselho que vos daria para o futuro era que além de continuarem a fazer esta newsletter e estas entrevistas, mas promovam a saída da zona de conforto da rapaziada de Eng.ª Biológica do Técnico para ir às empresas, às associações industriais, às iniciativas da Ordem dos Engenheiros e a outras iniciativas no exterior, e lancem o desafio aos professores para vos proporcionarem estas saídas. Não se fiquem pelas salas e laboratórios do Técnico. É uma escola muito agradável mas há mais vida fora dos muros do Técnico. Adquiram um bocadinho do espírito de “bichos-carpinteiros” e desafiem os vossos professores e a Ordem, que adora ser desafiada, para estas saídas. Participem, aprendam a ser Engenheiros e integrem-se na comunidade dos Engenheiros.

Nesta edição da NEBLetter estivemos à conversa com a Engenheira Inês Inácio! Formada em Engenharia do Ambiente na Universidade Católica encontra-se atualmente a trabalhar na LIPOR, uma entidade responsável pela gestão, valorização e tratamento dos resíduos urbanos da zona do Grande Porto. Até ingressar no mundo laboral, fez um estágio na Univesity of Antwerp na Bélgica sobre toxicologia ambiental e uma pós-graduação em Gestão da Qualidade.

Abordámos a Engenheira Inês durante as Jornadas de Engenharia Biológica, nas quais integrou o painel de Engenharia Ambiental. Tivemos uma conversa muito interessante, falando-nos abertamente dos tabus que mais tememos enquanto estudantes e trabalhadores, tal como o trabalho que desempenha na LIPOR, sempre de forma alegre e motivada!

Queremos deixar um obrigado à Engenheira Inês Inácio pela disponibilidade e simpatia.

 

1. Como é que o curso a preparou para o trabalho que desempenha de momento?

Acho que o que qualquer licenciatura nos dá são as bases! Às vezes tenho a sensação de que muitas coisas do que aprendi no curso não aplico no dia-a-dia, à exceção de algumas cadeiras que tive no final do curso, mais direcionadas para o que faço atualmente.

A faculdade, para além dos conhecimentos que transmite relativamente a cada curso, prepara as pessoas e dá ferramentas básicas para o mundo do trabalho. No meu caso, adquiri ao longo de 5 anos os conhecimento inerentes à licenciatura de Engenharia do Ambiente, deu-me ferramentas para trabalhar em equipa e ensinou-me a estar atenta e a ter a capacidade de aprender com aqueles que sabem mais.

2. Estágio em Antuérpia, na Bélgica: como chegou lá? Diferenças entre o trabalho lá desenvolvido e cá?

O estágio em Antuérpia foi curricular, opção no 5º ano da licenciatura, e foi a Escola Superior de Biotecnologia da Universidade Católica Portuguesa que organizou tudo, havendo já contactos de anos anteriores com diversas universidades e empresas. O estágio foi numa área que não tem nada a ver com o que faço agora, toxicologia ambiental. Foi muito interessante porque tive a experiência do que era fazer investigação, nomeadamente na área de genética, algo que no meu curso não era abordado. Neste estágio estudei o impacto de metais pesados em dois seres vivos: num peixe e num verme.

Foi muito interessante ver as diferenças do modo de trabalhar na Bélgica com o nosso método. Essencialmente, era notória a diferença de mentalidades e método de trabalho, por exemplo, cumpriamos um horário fixo das 8.30h às 17h, onde trabalhávamos quase sem pausas e ficavam espantados caso alguém ficasse a trabalhar fora de horas. Nessa altura perguntavam se não éramos produtivos, se não tínhamos conseguido fazer o nosso trabalho no tempo que era suposto ou se não tínhamos vida pessoal.

3. Porquê ter tirado a pós graduação?

A verdade é que quando me formei não tive logo emprego. Para não desperdiçar o meu tempo parada, sem fazer nada, achei que a pós-graduação seria uma ótima maneira de o rentabilizar. Por outro lado, na altura, há 10 anos atrás, a gestão de qualidade estava no seu auge e na faculdade não me tinham dado grandes bases sobre sistemas de gestão, nomeadamente o da qualidade. Assim, como na Universidade Católica havia uma pós-graduação que tinha precisamente este tema aproveitei a oportunidade e não me arrependo. Agora, apesar de trabalhar numa empresa cujo core business é o ambiente, trabalho na área de qualidade e por isso a pós-graduação e a licenciatura são o suporte do meu trabalho atual na LIPOR. Penso que a pós-graduação foi um fator decisivo na minha entrada para a Organização enquanto técnica superior de qualidade (acabo por ser a responsável pela interface da qualidade com a restante Organização).

4. Porquê a indústria?

Relativamente à indústria, eu acho que calhou. Qualquer recém-licenciado opta por realizar estágios e ir adquirindo competência e conhecimentos (de graça), em vez de estar parado à espera de um emprego remunerado que não sabe quando irá surgir. Quando me formei, em 2004, houve um período, normal, de procura de trabalho, que terminou com um estágio na TRANSMETRO. Na TRANSMETRO, ACE, realizei um estágio formal para a Ordem dos Engenheiros de abril a outubro de 2005, tendo integrado a equipa como técnica de acompanhamento ambiental dos estaleiros e frentes de obra para a construção do sistema de metro ligeiro da Área Metropolitana do Porto posteriormente. Foi um projeto interessante, calçar umas botas de obra, colocar o capacete, o colete e ir acompanhar a linha de metro e verificar o cumprimento dos procedimentos ambientais previstos foi muito gratificante.

5. Como teve o 1º Contacto com a LIPOR

Como qualquer pessoa que acaba o curso enviei imensos currículos e, no final de 2005, chamaram-me para uma entrevista para a LIPOR. Tirando a experiência na TRANSMETRO, foi o meu primeiro emprego “a sério” e desde que entrei já passaram quase 10 anos! Eu fui substituir um colaborador que saiu da área de qualidade e desde então que desempenho a mesma função. Claro que há sempre um progresso e a qualidade vai sempre acompanhando a evolução da Organização e dos processos. Por exemplo, em 2013, apesar de a LIPOR já ter três unidades certificadas pela ISO 9001, coordenei o projeto de alargamento da certificação a toda a Organização, tendo obtido a certificação global em janeiro de 2014. Trabalho numa área muito transversal da empresa e o que acontece, quer a mim quer a outros colegas, é que vamos integrando novos projetos e novos grupos de trabalho quando estes vão surgindo e conforme as necessidades.

6. Podia explicar melhor as suas funções na LIPOR?

Faço tudo o que tem a ver com o suporte do sistema de gestão da qualidade. Trabalho muito com a área produtiva, no que respeita ao controlo da qualidade do produto e do processo. Tenho um papel ativo na relação com os clientes, no que respeita à gestão de reclamações, na avaliação de fornecedores, na realização de auditorias internas, para além de outros projetos que acabam por ter um carácter transversal. De momento estamos com um projeto de eficiência ao nível dos processos de toda a organização, integrando um grupo de trabalho, cuja principal função é implementar ferramentas lean de gestão, muito ligadas com a qualidade e a melhoria contínua. Recentemente, integrei um grupo de trabalho que, em conjunto com o LNEG e outros parceiros a nível nacional, desenvolveu um projeto muito interessante no âmbito das compras públicas sustentáveis.

Uma experiência ótima que a LIPOR me proporcionou em 2008-2009 foi a participação no Young Manager Team Portugal (YMT Portugal) do BCSD Portugal – Conselho Empresarial para o Desenvolvimento Sustentável, que é excelente para técnicos que querem desenvolver competências nesta área.

7. Acha que o Ambiente é uma área a investir para os alunos de Engenharia Biológica?

O ambiente está, neste momento, integrado no conceito de sustentabilidade que incorpora as vertentes social, ambiental e económico. Face à conjetura atual do país, é minha opinião, que é dado mais foco à área social e económica, mas penso que em breve, se não for a curto prazo, o ambiente vai ser visto como uma prioridade. De uma maneira geral o ambiente continua a ser uma área muito interessante para estudar, mas penso que mais na ótica da sustentabilidade.

 8. Conselho para o futuro:

Acho que o panorama atual não é o mais favorável… O que acho é que tentar obter experiência e perceber o que se gosta mesmo de fazer é o mais importante. Deveria de haver um período, ou devia haver espaço, para uma fase de experimentação, fazer estágios e adquirir mais competências no terreno e, depois de se perceber o que é que se quer, tentar arranjar emprego nessa área.

Claro que quando se acaba o curso o que se quer é trabalhar, mas considero que o mais importante é descobrirmo-nos a nós próprios e quais os nossos sonhos e as nossas ambições!

 

 

Nesta edição da NEBLetter estivemos à conversa com o Engenheiro Filipe Silva, Mestre em Engenharia Biológica pelo IST a partir de Julho de 2012 e com um recente Doutoramento em “Up-scaling the production of bacteria for self-healing concrete application”, realizado na empresa Avecom, uma empresa Belga sediada em Wondelgem, Gent,  cuja atividade reside na optimização de processo microbianos.

O que mais te marcou na faculdade, tanto positiva como negativamente?

Parte académica, acho que, positivamente, no nosso curso, e em específico no técnico, existe uma grande exigência de todo o organismo e de todos os professores, o que nos prepara bastante para ir para a indústria. Em termos de percurso profissional académico, seguir para uma faculdade, não sei certamente até que ponto é que isso nos prepara, mas à partida, se te prepara para uma indústria, também te prepará para uma universidade, e acho que essa parte é muito positiva no técnico, sendo o que a diferencia de outras faculdades. Negativamente, acho que nós temos uma faculdade que ainda é um bocado teórica, não temos muita prática, nomeadamente comparando com outras faculdades estrangeiras e, portanto, quando eles chegam a um laboratório, existem máquinas que eles já viram, coisas em que eles já mexeram, e que nós, na grande maioria das vezes só as vimos ao longe. Acho que essa parte deveria ser um pouco melhorada tanto no Técnico, como em Portugal.

Em termos sociais, positivamente, e ao contrário de todas as controvérsias que tem havido ultimamente, a praxe, quando bem feita, é uma parte muito importante da vida académica, pois torna a integração das pessoas excecional, criando-se um espírito muito forte entre todos os envolvidos. Negativamente, devido também um pouco à exigência do técnico, há uma parte social que é descurada.

 

Pertenceste ao NEB? Como avalias a evolução do mesmo, e o que sentes ao perceber que já fez 10 anos?

Eu não só pertenci ao NEB, como ajudei a fundar o NEB. [risos] Pertenci à Comissão Organizadora e ajudei a planear as primeiras jornadas do NEB. 10 anos… É duro, sinto-me um pouco velho, mas é muito bom ver que uma coisa que nos deu tanto trabalho na altura e, como vocês podem imaginar, não havia nada semelhante, tenha conseguido ter esta evolução. Foi muito difícil conseguir algumas regalias para o NEB. Conseguimos o apoio de quase todos os professores do nosso departamento. Com Química foi um bocadinho diferente, mas lá se conseguiu, e não só foi muito bom o que obtivemos, como é muito bom ver que ainda existe, e que tem melhorado! Quando começámos tínhamos muitas ideias, mas que não chegaram sequer a sair do papel, sendo bonito ver que existe uma newsletter que é recebida todos os meses, que vocês conseguem contactar pessoas que saíram do Técnico, por exemplo, há 30 anos, e por isto sinto-me muito orgulhoso.

 

Assim que acabaste o curso, foste fazer o doutoramento para a Bélgica. Como achas que te preparou o Técnico para isso, e o que achas que foi importante para te integrares num grupo de trabalho com a agravante de ser no estrangeiro? O que achaste dos profissionais de lá?

A princípio não considerei fazer um doutoramento. Quando acabei o técnico, comecei à procura de emprego, mas sabe-se que Portugal está numa situação económica complicada e não foi fácil. Tive algumas entrevistas, algumas propostas, mas nenhuma era aliciante, e comecei a mandar currículos para fora. Ocorreu que havia uma empresa na Bélgica que tinha um projeto europeu para um pós-doc de dois anos, mas eles não conseguiam encontrar ninguém com as características pretendidas. Então decidiram pedir uma extensão do projeto para integrar um doutorado. Esse projeto está no âmbito dos projetos “Marie Curie”, uma fundação europeia que permite às pessoas acabadas de se formar, seguirem um doutoramento no estrangeiro, pago relativamente bem e que te obriga a sair da tua zona de conforto, dando-te condições para o fazeres. Fui fazer um doutoramento para uma empresa e foi claro, na altura, que nunca tendo trabalhado na área, visto que fui trabalhar com betão (fui meter “bichos” dentro do betão), mesmo com explicações que foram dadas e com algum estudo que fiz, revelou-se complicado perceber todo aquele envolvimento e organização. A primeira reunião do projeto foi 3, 4 dias depois de eu lá entrar, e apesar de perceber zero de betão, estruturas e forças de tensão (apenas percebia a parte teórica), cheguei lá e aquilo tudo fez-me um pouco de confusão, porque haviam coisas que não batiam certo, então comecei a questionar. Fiz perguntas a pessoas que trabalhavam naquela área há muitos anos às quais ninguém me sabia responder. Isto é o que o Técnico nos dá, ensina-nos a pensar. Nunca pus a hipótese de o Técnico não nos preparar, e o que é facto é que realmente prepara.

O estrangeiro é semelhante a Portugal, prepara-te exatamente para o mesmo. Notei que o nosso nível de inglês é, em geral, muito superior a países como Itália ou Espanha, e é importante ter um bom nível de inglês, pois toda a gente, desde o técnico de laboratório, até ao professor catedrático, fala inglês.

Em relação aos profissionais de lá, tenho que confessar que são um pouco melhores que os de cá. Infelizmente, provavelmente motivado pelos baixos salários e condições sociais, em Portugal as pessoas têm um menor rendimento no trabalho, e lá fora, regra geral, as pessoas são mais profissionais.

 

Após estes anos, como avalias o teu percurso académico no IST?

Eu não ia muito às aulas [risos]. Eu demorei rigorosamente nove anos e meio para acabar o Técnico, desde o dia em que comecei até ao dia em que acabei, mas com uma agravante: apanhei o processo de Bolonha pelo meio e isso teve coisas boas e más. Depois houve uma altura que eu não podia ouvir falar do Técnico, nem tão pouco vê-lo à frente. Mas eu vinha para o Técnico todos os dias. Então decidi integrar-me na Comissão Fundadora do NEB, decidi estar ligado a listas de Candidatura à AE, Conselho Pedagógico e Representante de Alunos. Fui membro do NAPE durante 2 anos e empenhava-me mais em tudo o que era extracurricular do que propriamente nas cadeiras, o que não corria bem, até que decidi que tinha que acabar o curso, e assim foi. Fiz todo o meu percurso académico no Técnico, desde o 1º Ano até à Tese de Mestrado, que fiz com a Prof.ª Isabel Sá Correia, com quem gostei muito de trabalhar. Nunca gostei muito de tudo o que era de decorar no entanto, tudo o que era de perceber, como Fenómenos, etc., sempre despertou o meu interesse. O Técnico é difícil e muito exigente, mas não é impossível de se fazer! O meu percurso académico foi muito longo, nem sempre foi fácil, mas valeu muito a pena.

 

Tem sido fácil conciliar a vida e o trabalho no estrangeiro, com tudo o que tens em Portugal? Ponderas vir, um dia, trabalhar para cá, ou já só pões a hipótese de ficares pelo estrangeiro?

A primeira resposta são três palavras: É Muito Difícil… Muito. No dia em que eu agarrei no carro e fui definitivamente para lá, eu chorei até meio do caminho, ou seja, durante 1000 km. É muito duro tirares um curso e depois seres obrigado a sair do país. É uma frustração muito grande e acabas por ficar odiar uma série de coisas, sejam elas, por exemplo, as instituições governamentais que não proporcionam hipóteses de ficares cá, ou então todas as leis que favorecem nitidamente os amigos dos amigos de alguém importante, sendo algo que não consegues deixar de lado facilmente. Não coloco de parte voltar, mas tinha que ser uma oportunidade fantástica, porque depois da qualidade de vida que experiencias lá fora, consegues perceber que tens condições e capacidade para ter uma boa vida, e as tuas ambições e metas sobem bastante, ficamos mais exigentes connosco e com a vida. Se essa oportunidade surgir, não agora mas, por exemplo, daqui a 5 ou 6 anos, mesmo estando magoado com o meu país, continua a ser o meu país e talvez voltasse, contudo voltar no imediato não, está completamente fora de questão.

 

Decerto que tens vindo a contactar com uma vasta diversidade de profissionais. Com base na tua experiência, o que consideras que um Eng.º Biológico está habilitado a fazer no mercado de trabalho? E como encaras os níveis de empregabilidade do curso?

Indo por partes, um Engenheiro, em geral, está apto a fazer muita coisa. E tal como aconteceu no meu caso, eu fui trabalhar em betão. Um Engenheiro português tem um “desenrascanço” muito bom, pois consegue fazer qualquer coisa. Temos uma capacidade muito grande para trabalhar ao nível de todos os países da Europa. Relativamente a um Engenheiro Biológico, mais uma vez o meu exemplo é bom, visto que fui trabalhar na área de engenharia civil e de materiais, ainda que coordenada com a nossa área. Também já tive a oportunidade de trabalhar em alimentação animal, recuperação de metais pesados e valiosos, produção de proteína, pelo que estamos aptos a trabalhar numa enorme área, e não só, ao contrário do que muitos pensam, na área de genética e genómica. Temos essa possibilidade, talvez até mais do que muitas engenharias, pois a nossa área engloba um pouco de Engenharia Química, de Engenharia do Ambiente, de Biologia, o que revela que podemos exercer funções tanto num laboratório pequeno como em grandes empresas.

Em termos de empregabilidade, há muita nos países do Norte. Em Portugal há mais em investigação e desenvolvimento, embora ainda esteja muito aquém do resto da Europa em termos de fundos, porque em termos de qualidade está ao mesmo nível. É importante que Portugal perceba que não é proveitoso andar a formar pessoas para, mais tarde, mandá-las para fora, porque o custo fica cá, e o proveito lá. Não podemos ter um primeiro-ministro que diz “emigrem!”. Não faz sentido andarmos a exigir aos portugueses um dado nível, incluindo cursos e grande estudos, e depois andarmos a “importar” pessoas que não satisfaçam tais níveis. É preciso mudar, pois quando Portugal precisar das pessoas que está a mandar embora, essas vão sempre querer ter um nível de vida igual ou superior, o que se revelará bastante difícil, pelo que não será fácil promover o seu regresso.

 

Falando da tua vida profissional, e terminado o teu doutoramento, consideras enfrentar agora um desafio mais na área da investigação (R&D), por exemplo, ou mais na área da engenharia de processos, ou até mesmo a engenharia de gestão?

Eu gosto muito das 3 áreas, e também gosto muito da Eng.ª de projeto. Acho que todas elas têm uma determinada mais-valia, e que puxam por características diferentes de um engenheiro. R&D puxa muito pela tua capacidade de ser criativo, que não é assim tão fácil quanto possa parecer, a Eng.ª de Processos e Projeto requer muito a tua parte prática e de resolução de problemas e a Eng.ª de Gestão requer mais a tua parte de falar com pessoas, um conhecimento mais abrangente de toda uma organização, puxando muito mais pela tua capacidade de te relacionares com as pessoas. A médio prazo gostava de me tornar um bom Project Manager, pois é uma parte que me atrai muito, porque, para tal, não tens apenas que conhecer e saber a matéria teórica, mas também a parte prática de ter sensibilidade de perceber como as coisas se fazem. A longo prazo, vejo-me mais na área da Eng.ª de Gestão, porque gosto muito da área dos Recursos Humanos, gosto de ver onde e como se pode melhorar, gosto de alocar o dinheiro de uma forma correta, algo que, infelizmente, nem sempre acontece. No entanto, tenho plena noção de que com o conhecimento que tenho (que já é algum) e com a carteira de contactos que tenho neste momento, não conseguiria ser um bom gestor e fazer exatamente aquilo que quero de um projeto. Por enquanto, não acho que tenha conhecimentos nem experiência suficientes para agarrar e liderar na totalidade um projeto de 20 ou 30 pessoas. Talvez liderar em parceria, ou seja, uma parte da gestão do projeto, esse sim, é o passo.

 

Quais os conselhos que dás aos atuais estudantes, nomeadamente os alunos do nosso curso?

Para os estudantes do ensino superior, tentem, se for esse o objetivo, trabalhar por cá. Mas, e nem sempre esta opinião é consensual, acho que depois de tirar um curso não podemos, de forma alguma, apanhar a primeira coisa que vem à mão. Percebo que por questões económicas as pessoas tentem agarrar logo a primeira oportunidade, mas se for possível não o façam. Os empregadores dão muito valor à tua personalidade, e uma pessoa que, embora não seja demérito, acabe um curso e vá trabalhar em algo sem qualquer ligação, poderá revelar uma personalidade que pode não ser bem aquilo que os empregadores procuram. E isto joga, não é contra os empregadores, mas sim contra as pessoas que acabaram de aceitar essa posição. Até poderão ter uma grande progressão, mas depois sair dessa área e entrar na área de estudo revela-se extremamente complicado. Assim, mais vale, por vezes, sair e procurar alguma oportunidade no exterior onde se adquira alguma experiência na área. Pode ser num supermercado, mas no controlo de qualidade, pode ser no MacDonalds, mas na parte alimentar, na parte de gestão de operações ou de stocks. Mas que seja numa coisa ligada ao que se aprendeu ao longo do curso. Uma pessoa que aceita a primeira proposta não mostra persistência ou ambição e um empreendedor quer, de facto, uma pessoa com resiliência e força de vontade, aqui ou em qualquer outro país.

O nosso curso, apesar de ainda não ser muito conhecido e não estar muito publicitado, infelizmente ainda é tomado em detrimento de Engenharia Química, por exemplo. Mas hoje em dia, existem várias oportunidades de emprego tanto a nível empresarial como a nível de doutoramentos, etc. Mais em particular, na nossa área, penso que bolsas Marie Curie ou várias outras oportunidades no estrangeiro sejam o caminho, pois obrigam uma pessoa a mexer-se e a ser proativa. Também na minha opinião pessoal, que pode ser polémica, para que uma pessoa vá para consultoria é preciso que queira e goste muito, pois para isso mais vale entrar como engenheiro de projeto para uma empresa, pois assim não precisará de recorrer a empresas de consultoria. Um consultor nunca trabalha num projeto durante muito tempo, nunca é um projeto mesmo nosso. Aconselho a quem queira candidatar-se a este tipo de emprego, a gostar mesmo disso, porque caso contrário vão acabar por ficar frustrados por estarem a fazer algo que, verdadeiramente, não gostam.

Há muito emprego para Engenheiros Biológicos, não há muito emprego em Portugal, estão a formar-se consórcios de empresas muito bons. As coisas estão a evoluir, por isso daqui a 10 anos vai haver trabalho em Portugal para Engenheiros Biológicos. Neste momento, há mais empregabilidade nos países do Norte, meramente porque começaram a desenvolver esta área há 10 anos atrás. Aconselho a ter, no mínimo, uma experiência no estrangeiro, a ganhar experiência, a desenvolver uma lista de contactos (que hoje em dia vale quase tanto como a experiência), que se cria muito mais facilmente no estrangeiro, pois aqui, em Portugal, limitamo-nos muito ao nosso círculo. Eu próprio achava que não era necessário ir para o estrangeiro, mas mudei completamente a minha opinião, sendo que neste momento acho importante fazer um Erasmus, ou algo parecido.

O Eng. João Líbano Marques começou o seu percurso académico com o curso de Engenharia Química, ramo de Biotecnologia, no Instituto Superior Técnico. De seguida, fez um estágio na Hoechst Portuguesa, durante cerca de um ano, tendo mais tarde sido recrutado para a Cipan. Posteriormente, foi trabalhar para a Telstar Projects (Barcelona) onde esteve dois anos como Project Manager, responsável pela implementação de instalações fabris farmacêuticas em diversas geografias (Projectos “Chave na Mão”). Desde há 6 anos que foi recrutado pela Jerónimo Martins para trabalhar como Coordenador da Qualidade da Marca Própria  – Não Alimentar.

NEB – Para começar podia falar-nos um pouco acerca do seu percurso académico e início do percurso profissional?

JLM – Eu tirei o curso de Engenharia Química no IST e acabei em 1994na altura com o ramo de Biotecnologia. Neste ramo existiam várias oportunidades de realizar Erasmus no último semestre do curso e eu tive a felicidade de fazer Erasmus na Bélgica com o Professor Erick Vandamme, na Faculdade de Agronomia de Ghent. No semestre que lá passei estive a fazer desenvolvimento de um projeto no âmbito de microbiologia industrial no laboratório do Prof. Vandamme: este tinha a ver com produção de novos açúcares, açúcares alternativos, com baixo teor em calorias e correu de tal forma bem que ainda hoje mantenho o contacto e a amizade com o Prof. Vandamme.
Na minha opinião, Erasmus é algo extremamente importante e recomendo-o sempre aos alunos, recomendo sempre que haja alguma experiência no estrangeiro, para que os alunos tenham a oportunidade de ver algo além do nosso mundo, do nosso quadradinho ou do nosso retângulo ‘à beira mar plantado’. É também logo uma maneira de marcar pontos e uma maneira de diferenciação no nosso currículo porque, na altura de apreciação de currículos, e falo da minha experiência na Jerónimo Martins, temos de apreciar imensos currículos de várias partes do mundo, e uma experiência de internacionalização no currículo é sempre uma “mais valia”, quer dizer que esta pessoa tem esta valência e poderá mais facilmente adaptar-se a outro contexto, pode ser “estrangeirada”, pode ser “exportada” e desempenhar bem o seu papel além fronteiras.

NEB – E relativamente ao percurso profissional?

JLM – Saí do IST e comecei logo a trabalhar. Estive 1 ano e 3 meses na Hoechst Portuguesa a trabalhar com o Prof. João Carlos Bordado (que ainda é Prof. no IST), num projeto de I&D na área de síntese de polímeros, enquanto bolseiro de iniciação à investigação cientifica da FCT.

Na Hoechst fiz um estágio na área dos polímeros e, visto que na altura esta era uma das maiores empresas químicas do mundo, este trabalho foi um grande pontapé de saída já que foi um trabalho internacional (tinha de estar em contacto com a sede na Alemanha e com parceiros de projecto na Holanda, por exemplo).

A certa altura comecei a ver que a investigação “pura e dura” não era bem o que eu queria, e comecei à procura de outro trabalho, tendo conseguido  ser recrutado para o Grupo Atral Cipan. Curiosamente, foi por resposta a um anuncio anónimo do Expresso Emprego que eu fui parar à Cipan por isso pode-se dizer que o Expresso Emprego funciona!
Na Atral Cipan lançaram-me um desafio bastante interessante: desenvolver o processo de scale-up de um “para-antibiótico” (ácido clavulânico, um inibidor de beta-lactamases) que seria vantajoso produzir na fábrica. Este foi um grande desafio para mim porque, como era muito jovem, fui lançado às feras com um projeto deste tamanho e com esta experiência ganhei muita bagagem e conhecimento na área da biotecnologia, o que constituiu as bases do meu trabalho nos 12 anos que lá estive.

A certa altura achei que estava a “cristalizar” e que precisava de ver mais mundo e surgiu um desafio por parte de uns “head hunters” para trabalhar numa empresa em Espanha,  a Telstar Projects.  Acabei por ser recrutado  para a mesma para ser project manager, mais especificamente para coordenar a implementação de fábricas farmacêuticas em destinos tão exóticos como o Bangladesh, a Jordânia e a China.

Quando dei por mim, de repente estava no meio da selva no Bangladesh a montar uma fábrica, num ambiente estranho, num país completamente estranho mas a coordenar equipas quer locais, quer ocidentais.

A Telstar Projects funcionava muito à base de projetos chave na mão (projetos em que o cliente pede uma fábrica com certas especificações montada no sítio X, e que quando esta está pronta é entregue a chave ao cliente com tudo pronto a produzir). E portanto são projetos em que eu acabava por ter mais a coordenação de equipas e gestão de pessoas no terreno.

Foram dois anos espetaculares, fartei-me de voar, montar fábricas e conhecer culturas complicadas. Apanhei um golpe de estado no Bangladesh na altura em que lá estive, com tiros pela rua, aeroportos fechados e tudo isto são coisas que nos marcam enquanto pessoas e engenheiros.

Após estes dois anos voltei a candidatar-me a um anúncio anónimo do Expresso Emprego que por acaso era para a Jerónimo Martins. Quando ainda estava no Bangladesh fui contactado para fazer uma entrevista e acabei por ficar na empresa!

NEB – Pode esclarecer o trabalhar que desempenha na Jerónimo Martins enquanto coordenador da área não-alimentar?

JLM – Já estou há sensivelmente seis anos na  Jerónimo Martins. Desde o início que desempenho as mesmas funções aqui na empresa, sou coordenador da área não-alimentar e penso que seja assim visto que a empresa andava à procura de alguém que tivesse standards exigentes e visto que nesta área da indústria os standards mais exigentes são os da área farmacêutica, a minha experiência nessa área contribuiu imenso para ser recrutado e estou cá alegremente deste então!

Eu coordeno uma equipa relativamente pequena porque, como devem imaginar, o core business do Pingo Doce é a área alimentar. A área não alimentar, apesar de não ser maioritária, representa um papel muito importante e o trabalho que temos feito aqui tem sido no sentido de elevar os níveis qualitativos da marca própria para um patamar elevadíssimo equiparado aos benchmarks (melhores produtos em termos de performance do mercado naquela categoria). O nosso processo de lançamento de produtos é um processo certificado, somos auditados regularmente e há uma série de passos a cumprir, nomeadamente o screening do benchmark para o produto que queremos lançar e depois desafiar os fornecedores no sentido de desenvolverem um produto tão bom ou melhor que aquele.
Servimo-nos de laboratórios externos para fazerem a parte mais difícil do trabalho, os testes aos produtos: ensaios clínicos, físico-químicos e de performance comparativa. Temos de nos preocupar em selecionar os melhores laboratórios para analisar cada um destes artigos. Assim, seleccionamos os laboratórios e o tipo de testes que é necessário fazer.
Nós somos responsáveis por tirar conclusões dos relatórios que recebemos e aferir se determinado produto já alcançou o nível de benchmark e se portanto este já pode ser aprovado para o lançamento de marca própria. Sublinho que depois de lançado, cada artigo de marca própria que está em loja é analisado pelo menos três vezes por ano. Depois temos também de coordenar as fases de desenvolvimento de packaging e as auditoria aos fornecedores. Tratamos também da parte de reclamações de clientes, do infarmed, etc.

O trabalho com os fornecedores envolve uma proximidade enorme entre as duas partes para que a ligação seja eficiente e para que quando exista algum problema, do outro lado não seja apenas uma voz, mas sim alguém que conhecemos.

Este trabalho também envolve muitas viagens, diretamente relacionadas com as auditorias das várias fábricas dos fornecedores. O trabalho de auditoria às fábricas envolve controlar uma série de pontos a nível de legislação (papéis) e também a nível de processos experimentais, que são regidos pela norma ISO 9001. É preciso auditar as boas práticas de fabrico, se a fábrica tem condições, se as condições climatéricas e ambientais são as melhores e os produtos são os ideais, se o layout da fábrica faz sentido e intervir no sentido de resolver problemas encontrados no produto final (devido a reclamações por parte de clientes ou aos resultados provenientes de análises laboratoriais não conformes).

O objetivo destas auditorias é também a de conseguir identificar certos problemas ou maneiras de valorizar o processo de produção e no ano seguinte, quando lá voltarmos, espera-se que já existam melhorias significativas relativamente às falhas apontadas no relatório anterior.

Este trabalho é muito interessante porque é diferente todos os dias, há sempre problemas diferentes a resolver.

NEB – Sabemos também que desempenha o cargo de vogal na Ordem dos Engenheiros, pode explicar em que consiste?

JLM – Sou vogal do Colégio de Engenharia Química e Biológica da Região Sul na Ordem dos Engenheiros.Sou o “Bio-vogal”, e quando há candidatos à Ordem dos Engenheiros e é preciso avaliar currículos ou relatórios de estágio que tenham a ver com biotecnologia, sou eu que o faço. O meu trabalho também se prende depois com o organizar alguns dos eventos do nosso Colégio, que irão acontecer ao longo dos 3 anos do mandato.
NEB – Acha que há alguma área que possa não ter abordado mas em que gostaria de ter trabalhado?

JLM – Isso é difícil. Normalmente não me arrependo das decisões que tomo e não lamento um passado que poderia ter sido e que acabou por não acontecer. Eu olho sempre com um sorriso nos lábios para o dia de amanhã e com otimismo, e se realmente quiser fazer alguma coisa que ainda não tenha feito, eu vou fazê-la. Não é do alto dos meus 44 anos que seja tarde para fazer qualquer coisa que seja. E uma coisa importante de se dizer é que não há empregos para sempre e não há trabalhos para sempre e ainda bem, antigamente é que era assim. E é importante não manter um conservadorismo mental e pensar “eu gostava de fazer isto mas para isso tenho que ir para a Alemanha, por isso não vou”, o que está mal. É uma postura errada porque há muito mais mundo que Portugal, “Portugal é uma aldeia”. Ao longo da vida temos de estar mentalizados para sair.

NEB – Acha que o Técnico tem projeção lá fora?

JLM – Eu acho que o Técnico tem a sua projeção e há muitos professores que vêm a lisboa dar aulas ao abrigo do programa Erasmus e sabem que não é uma escola qualquer. O IST é uma marca reconhecida. O melhor que tem é a sua capacidade na preparação dos alunos e o facto de nos deixar aptos a resolver qualquer problema, por mais difícil que seja, catapultando-nos para níveis de excelência muito altos. Tenham confiança naquilo que estão a estudar.

No final de contas, no Técnico os profs dão-nos uma bagagem tão boa que estamos depois aptos a aprender e a apreender coisas novas mais facilmente, e as pessoas dos outros países reconhecem no nosso trabalho grande valor.

O engenheiro português é muito valorizado. É sempre engraçado aquelas piadas alemãs que dizem que todas as fábricas têm um português dentro de uma vitrina que diz: “Partir em caso de emergência”.

 

NEB – Quando foi para o Bangladesh como é que reagiu a população local ao facto de estar lá a construir fábricas?

JLM – O pessoal de lá olhava para nós com bastante admiração e especialmente no Bangladesh as pessoas eram extremamente humildes e cerca de 90% vivia abaixo do limiar da pobreza e isso era aterrador. Nestas alturas tem que se desligar um bocadinho o chip da comiseração e amor pelo próximo porque não se consegue salvar toda a gente.

As pessoas sabiam que nós não estávamos lá para explorar os recursos do país, até porque nós estávamos a trabalhar para uma empresa local que pretendia com esta fábrica produzir insulina injetável (sendo que grande parte da população do Bangladesh é insulino-dependente devido a um problema genético).

Nunca me senti hostilizado por ser português ou por ser europeu ou tive problemas desses. E ainda tenho muito bons amigos da altura em que trabalhei no Bangladesh. Nunca tive entraves nenhuns relativamente à religião, cor, credo. Temos é que respeitar o próximo e não podemos ter preconceitos. Há muita gente da minha vida passada que ainda faz parte da minha vida presente: ainda o ano passado uns amigos espanhóis vieram passar uns dias a minha casa porque tinham um casamento em Lisboa e também era para receber um amigo do Paquistão que vinha cá passar o Natal mas não conseguiu porque à ultima da hora foi destacado para outro trabalho.

NEB – Pedíamos-lhe um conselho final para os alunos que estão a acabar o curso, que já acabaram ou que simplesmente ainda acabaram de entrar.

O mundo é a vossa casa, não se cinjam às quatro paredes de Portugal. Ver o mundo, sabermos mais, sabermos mais sobre os outros, ter a possibilidade de levar os nossos conhecimentos para além fronteiras e de além fronteiras receber outros conhecimentos e ser feliz. Ser feliz é o mais importante.

Este mês estivemos à conversa com o Professor Duarte Prazeres, coordenador do Mestrado em Engenharia Biológica. O Professor Duarte tirou o curso de Engenharia Química na Universidade de Coimbra e posteriormente tirou o doutoramento em Eng. Química no IST. Os seus interesses científicos focam-se na engenharia de ácidos nucleicos e na nanofluídica.

 

– Pode-nos falar um pouco do seu percurso Académico?

Eu formei-me em Engenharia Química na Universidade de Coimbra, em 1989, e posteriormente vim para o IST fazer o doutoramento em Engenharia Química, sob orientação do Professor Joaquim Cabral na área de Engenharia Enzimática. Em 1993 iniciei o meu percurso como professor auxiliar e desde então tenho feito carreira de docente aqui no Técnico. Na altura a parte biológica existia com um ramo de engenharia química, o ramo de Biotecnologia, que aos poucos foi crescendo e mais tarde acabou por se autonomizar dando origem ao curso de Engenharia Biológica.

Fiz também um pós doutoramento no MIT, em 1997, onde retornei por outros 4 meses. Foi uma experiência ótima! É sempre bom conhecer outro ambiente, como é que as pessoas lá fazem investigação e como é que ensinam, para além da experiência que é viver no estrangeiro! Foi uma ótima experiência, que aconselho a todos os alunos que tiverem oportunidade a fazer!

Tendo estado no MIT devo dizer que em termos de orçamento não tem nada a ver com as universidades portuguesas e que mesmo toda a envolvente é completamente diferente. Existem imensas empresas, cooperando e colaborando com as faculdades. São as empresas que vão à procura daquilo que se está a investigar nos laboratórios e de alunos para serem recrutados, ao contrário da realidade a que estamos habituados em Portugal. Nos USA a mentalidade é muito diferente da nossa: criar coisas novas e criar empresas é um prática mais comum, nós somos um pouco mais estáticos.

 

– Técnico vs Universidades lá fora:

Penso que o Técnico é uma universidade forte e que proporciona um nível de ensino equivalente. Eu digo isto devido ao feedback que tenho de pessoas de fora que recebem os nossos alunos, de facto eles reconhecem que os alunos formados aqui têm uma formação muito boa: tanto ao nível das áreas fundamentais como a física, matemática (as  bases da engenharia), …, tal como áreas mais específicas de cada curso.

A nível da investigação, no IST faz-se investigação de topo em diversas áreas, claro que vai depender de área para área, mas em muitas estamos equivalentes ao que se faz lá fora.

 

– Pode-nos falar um pouco da sua área de investigação?

Faço investigação na área de engenharia biomolecular e na área de bioprocessos, em termos latos. Tenho trabalhado muito na parte de “downstream processing” e também de “upstream processing” nomeadamente na purificação de compostos mais especificamente de moléculas de DNA: plasmídeos. Tenho investigado também as suas aplicações a nível de terapia génica e minicírculos de DNA com aplicação farmacêutica.

Estou também a desenvolver um projeto de investigação na área da biotecnologia, em colaboração com o professor João Pedro Conde do INESC-MN, em que a ideia é utilizar biomoléculas no âmbito de aplicações como biossensores, microchips, etc.

Ultimamente também estou a trabalhar no desenvolvimento de dispositivos analíticos de baixo custo que permitam fazer análises rápidas, no âmbito do diagnóstico de doenças ou controlo de qualidade na indústria. Estamos a tentar desenvolver plataformas Low-cost em suporte de papel.

Esta área envolve várias ferramentas nomeadamente a modificação de biomoléculas, ou estudar o modo como essas moléculas vão ser combinadas com o suporte, que é o papel neste caso. Há todo um processo de produção de biomoléculas, de construção de proteínas de fusão, etc, no qual nós trabalhamos.

 

Como estamos nós no que toca a introdução de novos produtos no mercado?

Aqui em Portugal é muito difícil, particularmente nestas áreas. Não há propriamente empresas em Portugal que estejam à procura de investigação desenvolvida pelas faculdades para aplicar. Começa a haver colaborações entre universidades e empresas. Agora temos uma colaboração com a Novartis e temos também um projeto com a Nzytech da qual resultou colocação de novos produtos no mercado.

Ainda não é como lá fora visto que também não existem assim tantas empresas “bio”, é mais difícil encontrar um parceiro. Mas também é preciso notar que há muitas empresas ainda no estado de média-pequena empresa na área de biologia.

É difícil também visto que as faculdades têm um timing diferente do das empresas. Em empresas há um ambiente constante de inovação. O que se está a desenvolver agora pode perder o interesse e, daí a um mês já se está a apostar noutra área/produto visto que o contexto mudou.As faculdades demoram normalmente mais tempo a originar resultados.

Existem por vezes questões que têm a ver com a confidencialidade e com a propriedade intelectual. Um aluno que esteja a fazer um doutoramento com a empresa pode chegar ao final e, devido à confidencialidade, não tem a possibilidade de publicar nenhum artigo e se quiser seguir uma vertente científico isto é um handicap. Perde oportunidades com isto.

 

Curso Engenharia Biológica: Expectativas vs Objetivos

Penso que os objetivos foram atingidos! Continua a ser um curso com grande procura, em média existem 300 alunos a candidatar-se por ano enquanto que o número de vagas é 65. É um curso que se tem vindo a afirmar, há uns anos não se sabia tão bem o que era um engenheiro biológico, o que fazia ou não. À medida que os alunos foram saindo formados e foram sendo contratados os empregadores foram tendo conhecimento acerca de nós, começaram a perceber o que é o curso. E perceberam que se calhar o engenheiro biológico, antes de mais é um engenheiro, tem uma formação de engenharia, não é uma pessoa que faz umas “biocoisas”. É cada vez mais um reconhecimento que a formação em Engenharia Biológica é uma engenharia muito forte e que perfeitamente a par com as outras engenharias aqui do técnico.

 

Ainda há lacunas a preencher?

Falta sempre fazer coisas. Há uma questão importante da divulgação do curso que, é muito feita pelos alunos que saem daqui e vão trabalhar e também pelo NEB, no âmbito dos estágios de verão, por exemplo. Muitas das coisas que há a fazer passam pelo trabalho dos alunos e não tanto pelo trabalho dos coordenadores. Os alunos são mais, estão à procura de oportunidades e por isso sempre conseguem chegar a mais lados e divulgar melhor o curso.

É de referir que o nº de teses publicadas aumentou do número de 20 para 60, o que coloca novas questões de logística e gestão e às vezes é um trabalho complexo de fazer.

Acho que o número de alunos que entra está adequado. Apesar de haver muita procura há sempre a dificuldade do mercado poder proporcionar colocação e há o problema das condições

 

Áreas a enveredar por um aluno de Engenharia Biológica?

Uma das características deste curso e dos nossos alunos é que nos encaixamos praticamente onde quisermos, muito bem em muitas áreas.     Se se for ver as teses publicadas nos últimos anos pode-se verificar que há uma diversidade cada vez maior: desde controlo de qualidade na indústria alimentar, investigação na área do cancro, aplicações em biotecnologia de plantas, bioprocessos, simulação de controlo, entre outros. Temos um leque muito grande de áreas onde se pode trabalhar. Posso dar como exemplos: Bioindústria, bioprocessos, indústria alimentar, indústria farmacêutica, que são de grande importância e estão em crescimento. Claro que há também a área de investigação, apesar de agora estar mais difícil, principalmente em Portugal.

 

 

Investigação vs Engenharia

Penso que não exista nenhuma componente que se sobreponha à outra no curso. Há um conjunto de ciências básicas e fundamentais, as bases da Engenharia, e outro de ciências já mais específicas, a vertente já da investigação, e é esse conjunto que dá riqueza ao curso.

Relativamente à quantidade de alunos empregue em cada uma das vertentes: existe uma grande quantia de alunos que vai para a parte de empresas e há um conjunto menor que tem grande apetência para investigação científica e que por isso mesmo vai para essa área. Mas, parte dos alunos que optam pela via de investigação acabam por vir a enveredar em empresas mais tarde no seu percurso profissional.

 

Site Bioempresas

Foi um projeto que surgiu há 4 ou 5 anos quando duas alunas, que tinham acabado o curso há pouco tempo, vieram falar comigo a perguntar empregadores e empresas que trabalhavam em diversas áreas. Comecei a pensar nesse assunto e lembrei-me que realmente faltava um conhecimento mais geral de empresas, em Portugal, que pudessem empregar pessoas de engenharia biológica. Comecei a construir este site, através da wikipages, e fui aumentando o diretório de empresas, se bem que agora não tenho tido tanto tempo.

O que tem de ser feito é ir atualizando a página, acrescentar informações, alterar os sites, …

 

Spin-off’s do técnico

Não é qualquer pessoa que tem as características necessárias para começar uma empresa, dos alunos que passam por aqui apenas uma pequena percentagem tem o perfil exigido para lançar uma nova empresa, pelo que não têm aparecido muitas. Existe o caso da Biotrend, a Biotecnol, Cell2be, a Bioteca.

 

Conselho para o futuro

Há algo que é importante que é o manter o contacto entre colegas, com os professores, com pessoas que vamos conhecendo ao longo do percurso académico. É importante mantermo-nos ligados ao técnico e tentar estabelecer uma forte rede de contactos. Isto porque vão surgindo oportunidades que uma pessoa, amiga de uma pessoa, que conhece um colega vosso, precisa de alguém com o vosso perfil e gostos. Estamos num mundo global e é assim que as coisas funcionam.

De vez em quando ainda recebo e-mails de alunos a perguntar se há oportunidades ou então sei de uma oportunidade e reencaminho para alunos que sei que têm o perfil para tal.

E obviamente continuem a estudar e a trabalhar e o que no fim interessa é conseguirem fazer uma boa gestão global da vida pessoal e da vida profissional.

 

Por Inês Martins, Aluna do 3º ano e Duarte Martins, Aluno do 4º ano, de Engenharia Biológica, IST.

Este mês a equipa da NEBLetter esteve à conversa com o Dr. Simão Soares. Engenheiro Informático, com um Mestrado em Bioinformática, passou pela DTU (Technical University of Denmark) e, mais tarde, acabou por fazer uma pós-graduação na Nova School of Business and Economics. Já colaborou com a Universidade do Minho nas áreas da Bioinformática e Biologia de Sistemas, sendo atualmente CEO da SilicoLife, uma empresa que trabalha na criação de soluções de Biologia Computacional para as Ciências da Vida.

 

Para começar, poderia falar-nos um pouco acerca do seu percurso, tanto académico como profissional? Como surge a SilicoLife?

Sou um Eng. Informático de formação, que depois passou para a Biologia, ou seja, após me ter licenciado em Engenharia Informática, percebi que não tinha muito interesse em seguir áreas de consultoria (IT puro). Nesse momento estava a abrir a 1ª edição do mestrado em Bioinformática que me despertou um grande interesse e pelo qual acabei por optar. Nessa mesma altura ainda trabalhei num laboratório de investigação operacional, num tema mais relacionado com otimização dos cortes e maximização do aproveitamento da pele de vaquinhas [risos] para a produção de estofos de luxo. No fundo, os conceitos de investigação operacional são transversais a muitas áreas e até aplicados na simulação que fazemos atualmente. No final do mestrado, tive a oportunidade de fazer parte da minha tese na DTU (Technical University of Denmark) e voltei para Portugal onde fiquei a fazer investigação. Mais tarde fui desafiado pelos fundadores científicos da empresa, que também foram meus professores, para, em conjunto com antigos alunos e investigadores, criar um projeto empresarial. Foi assim que em 2010 nasceu a SilicoLife.

A partir daí passei a focar-me mais na área da gestão e do negócio, tendo mesmo feito uma pós-graduação na Nova School of Business and Economics, ou seja, comecei o meu percurso na informática, passando pela biologia e, mais recentemente, focando-me na gestão.

 

Como é possível fazer a ponte entre a ciência e a gestão? Considera-se mais um cientista ou um gestor?

Hoje em dia considero-me mais um gestor. Felizmente trabalho com pessoas que são mais cientistas, e uma empresa deste género só funciona em equipa, no nosso caso em particular ainda mais. Temos pessoas mais especializadas em ciências da computação, cuja formação base é informática e se doutoraram em bioengenharia por exemplo, e temos pessoas que começaram na parte da biologia passando depois para a biologia de sistemas, ou seja, é normal existirem estas mudanças de perfil ao longo da carreira. Isto faz com que sejamos capazes de comunicar, percebendo o que cliente pretende e resolvendo o problema com uma abordagem racional e apresentando a solução numa linguagem que permita ao cliente perceber o valor do trabalho que estamos a desenvolver.

 

Sendo a Silicolife uma empresa relativamente recente, como foi entrar neste mundo do negócio?

Trabalhar nesta área para uma pequena empresa é sempre difícil. Começámos em 2010, apenas com investimento inicial dos fundadores (mínimo legal na altura) e com um pequeno projeto, não directamente em bioinformática ou biologia de sistemas, mas que nos permitiu arrancar com a empresa. De seguida, começámos a ir para fora. Atualmente estamos presentes em alguns eventos muito específicos onde apresentamos as nossas tecnologias e procuramos estudar os problemas dos possíveis clientes presentes, ou seja o trabalho de casa, para poder dizer “Vocês têm este problema, e nós temos esta proposta para vos ajudar a resolvê-lo”. É um caminho que foi feito ao longo de 5 anos, e agora acabamos por conseguir ter um nome reconhecido no mercado. Relativamente aos grandes clientes, por um lado é difícil entrar, mas por outro, a partir do momento em que estamos no pipeline do desenvolvimento de uma destas grandes empresas, eles também querem garantir que estamos nas melhores condições para podermos dar continuidade ao nosso trabalho. É importante continuar à procura de novos projetos e querer fazer sempre mais. Começámos com meia pessoa em 2010, e hoje em dia temos uma equipa com mais de 15 pessoas. É um caminho que vamos fazendo passo a passo.

 

Como abordam os problemas que vos são apresentados pelos clientes?

O problema começa por: “Como desenhar um processo biológico para produzir um determinado composto a partir de determinada matéria-prima?”. Muitas vezes, o passo intermédio, o organismo, já foi selecionado, porque o cliente tem experiência na sua manipulação, pelo que o nosso papel passa por definir estratégias para modificar o microrganismo mantendo-o viável e aproveitando determinadas condições do processo. Passa frequentemente por determinar que caminhos existem na natureza que nos permitem obter o composto em questão, qual a melhor combinação de vias heterólogas no dado organismo, ou, mesmo, desenhar atividades completamente novas a partir de atividades existentes, isto é, compreender o que se passa entre o substrato e o produto, qual a transformação química inerente – entramos na área da bioquímica -, e pensar que enzimas fazem transformações semelhantes e podem ser interessantes para definir uma atividade que nunca ninguém ainda tinha pensado.

Há muita investigação, mas investigação aplicada aos problemas dos nossos clientes. Acaba por ser mais interessante, mas tem outro tipo de pressão. Há lugar para investigação fundamental e aplicada. O exemplo de Watson e Crick, com a estrutura do DNA, reflete isso mesmo: inicialmente não passou de um artigo de meia página sem grande impacto e, hoje em dia, está na base de tudo o que é biologia moderna.

 

Como é que um Engenheiro Biológico encaixaria na Silicolife?

O que procuramos numa pessoa com o vosso background são bons conhecimentos de metabolismo celular e de bioquímica, aliados à matemática, para que seja possível entrar na área da biologia computacional. É também necessária uma base sólida de processos, que permita olhar para os dados de uma fermentação por exemplo, e rapidamente perceber o que está a acontecer e fechar os balanços de massa, porque muitas vezes um processo de otimização começa por aí. Quando um cliente aparece com dados de um fedbatch é necessário perceber que há, por exemplo, carbono a ir para um sítio que não pretendemos, encontrar uma maneira de o redirecionar e assim obter o produto de interesse. Com certeza há muito trabalho para vocês!

 

Por último, que conselhos pode dar aos estudantes, mais particularmente aos de Engenharia Biológica?

Façam coisas! Quando se está na universidade é a altura de tomar maiores riscos, de ser empreendedor, mesmo que depois não se crie uma empresa. Se não vão fazer coisas diferentes e arriscadas agora, não será certamente daqui a 10 anos quando tiverem um filho. Comecem agora, aprendam e apostem nas interfaces entre diferentes áreas. Estão no sítio certo para adquirirem boas ferramentas para fazer coisas novas.

Miguel Cerqueira é investigador do Centro de Engenharia Biológica da Universidade do Minho e recebeu recentemente o prémio “Outstanding Young Scientist”, atribuído pela União Internacional de Ciência e Tecnologia de Alimentos (IUFoST), a principal organização científica mundial nesta área. Este investigador terminou o curso de Engenharia Química e Biológica, também na Universidade do Minho, em 2005.

Surpreendeu-me a forma disponível com que acedeu prontamente a responder a algumas questões que lhe coloquei. Foi numa “conversa” à distância que Miguel Cerqueira revelou os traços gerais dos seus mais recentes projetos e respetivas motivações, assim como as perspetivas para o futuro da área da Tecnologia e Biotecnologia Alimentar.

1.   Foi premiado pela investigação inovadora que desenvolveu na área alimentar. Fale-nos um pouco deste projecto.

A minha actividade de investigação centra-se fundamentalmente em dois tópicos principais: o primeiro relaciona-se com as embalagens comestíveis para aplicação em alimentos, com objectivo de aumentar o tempo de prateleira dos alimentos, e a incorporação de novos compostos nutricionais nos alimentos, evitando assim o uso de embalagens sintéticas e possibilitando o aumento do valor nutricional dos alimentos; o segundo, está relacionado com o desenvolvimento de partículas à micro- e nanoescala com base em compostos naturais para aplicações alimentares para, por exemplo, incorporar compostos bioactivos/funcionais em alimentos e aumentar os seu valor nutricional. No último ano, tenho-me dedicado ao desenvolvimento de óleogeis, que são novas estruturas, para aplicações alimentares, com base em gorduras saudáveis que permitem substituir as gorduras prejudiciais para o consumidor e manter as características organolépticas dos alimentos.

 2.   Que motivações é que o levaram a enveredar por esta área?

Um dos meus primeiros trabalhos como investigador focou-se na procura de novos biomateriais (polissacarídeos) para aplicações alimentares. Num projecto onde estive envolvido no Brasil (Universidade Federal do Ceará) extraí gomas de novas fontes naturais. Com esta experiência, e depois, durante o meu doutoramento, percebi todo o potencial científico e tecnológico da utilização de compostos naturais no desenvolvimento de novas estruturas para aplicações alimentares. Sempre considerei que a utilização de compostos naturais e de grau alimentar têm grande aplicabilidade industrial, não só pelo facto de permitir a substituição de alguns ingredientes sintéticos mas também devido à sua capacidade de originar produtos inovadores.

3.   Relativamente ao mundo do trabalho, esta é uma área em expansão, ou seja, acredita que é um caminho em que devem investir os estudantes de engenharia biológica?

Sim, sem dúvida, é uma área em expansão onde os estudantes de engenharia biológica e os recém-licenciados deverão investir. As competências adquiridas ao longo da licenciatura ou mestrado integrado sendo muito abrangentes permitem aos estudantes, no atual mundo de trabalho, direcionar a sua atividade para a indústria ou investigação.

4.   Para além desta área, que outras lhe parecem poder criar atualmente oportunidades de trabalho para quem opte por este curso?

A indústria alimentar tem crescido nos últimos anos de uma forma global, não só pelas preocupações com o aumento da população mundial mas, também pelo, facto dos consumidores serem cada vez mais exigentes, onde produtos inovadores, seguros e com preços competitivos são a chave para o sucesso da indústria alimentar. Além disso, questões relacionadas com a sustentabilidade como o uso de materiais biodegradáveis ou a valorização de resíduos são alguns dos temas mais discutidos. Acho, por isso, que a área da Tecnologia e Biotecnologia Alimentar tem atualmente excelentes oportunidades de trabalho; há vários países da  Europa lideres nesta área, e em Portugal o interesse tem vindo a aumentar.

5.    Tem sido compensador para si trabalhar em Portugal?

A minha carreira profissional tem sido desenvolvida no Centro de Engenharia Biológica (CEB) da Universidade do Minho. Desde o final da minha licenciatura, em 2005, faço parte de um grupo de trabalho que, além da excelente capacidade científica que tem vindo a demonstrar ao longo destes anos, permite-me ter um ambiente de trabalho formidável. Somos uma grande família de investigadores! Além disso, e apesar do CEB estar muito bem equipado para o trabalho que desenvolvo, tenho tido a oportunidade de trabalhar em outros Centros de investigação, quer seja em Portugal, como em Espanha, Brasil e Irlanda, colocando-me em contacto com  outras ferramentas que não existem no CEB, conhecer e partilhar informação com outros investigadores, e aprofundar mais as áreas que estudo. Por isso, posso afirmar que tem sido compensador trabalhar em Portugal.

6.   Já se sentiu tentado ou atraído por oportunidades de desenvolver investigação no estrangeiro? E se saísse de Portugal, que países estariam no topo da sua lista? Porquê?

Nunca esteve nos meus planos desenvolver investigação no estrangeiro, pelo menos por longos períodos de tempo. Já estive em outros Centros de investigação onde permaneci alguns meses, e considero fundamental para o desenvolvimento como investigador e como pessoa. Neste momento tenho todas as ferramentas para continuar a desenvolver o meu trabalho, existem alguns aspetos a melhorar, mas com o tempo, acredito, serão ultrapassados. No futuro, espero continuar a fazer investigação no Centro de Engenharia Biológica e continuar a trabalhar no grupo onde estou, e espero que as minhas expetativas se concretizem.